Todo dono de restaurante que opera pelo iFood sabe que paga comissão. O que a maioria não sabe — porque nunca parou para somar tudo numa planilha — é quanto essa comissão representa na prática quando se leva em conta cada componente da estrutura de custos do marketplace.
Este artigo não é um ataque à plataforma. É um exercício de transparência financeira que todo gestor do setor de alimentação deveria fazer ao menos uma vez por trimestre. Os números podem surpreender.
Por que essa conta é tão difícil de fazer
O modelo de precificação dos grandes marketplaces de delivery é, por design, fragmentado. Não existe uma única linha de custo chamada “taxa do iFood”. Existe uma comissão percentual, mais uma mensalidade de plano, mais uma taxa logística (quando o restaurante usa os entregadores da plataforma), mais o custo eventual de anúncios patrocinados para aparecer nos primeiros resultados, mais o custo de capital embutido no prazo de repasse — que, dependendo do plano contratado, pode chegar a trinta dias corridos.
Quando esses custos são analisados de forma isolada, cada um parece razoável. Quando somados sobre uma operação real, o quadro muda.
Os componentes do custo real
1. A comissão percentual
O iFood trabalha com diferentes faixas de comissão dependendo do plano contratado e do porte do estabelecimento. Segundo informações disponíveis publicamente e relatos de operadores do setor, as comissões variam entre 12% e 27% sobre o valor do pedido.
Restaurantes menores, com menor poder de negociação, tendem a ficar nas faixas mais altas. Redes maiores conseguem condições mais favoráveis, mas raramente abaixo de 12%.
Para uma operação com ticket médio de R$ 50,00 e comissão de 27%, isso representa R$ 13,50 entregues à plataforma a cada pedido — antes de qualquer outro desconto.
2. A mensalidade do plano
Além da comissão variável, o iFood cobra uma mensalidade fixa pelo acesso à plataforma. Os valores variam conforme o plano, mas giram em torno de R$ 130 a R$ 200 por mês para estabelecimentos de pequeno e médio porte.
Para um restaurante que processa 150 pedidos por mês, essa mensalidade adiciona aproximadamente R$ 1,00 de custo fixo por pedido — pequeno isoladamente, mas relevante quando somado à comissão.
3. A taxa logística
Quando o restaurante opta por usar a frota de entregadores do próprio iFood, incide uma taxa logística adicional por entrega, que pode variar entre R$ 4,00 e R$ 9,00 dependendo da distância e do momento do dia.
Muitos operadores escolhem essa opção por simplicidade operacional — não precisam contratar ou gerenciar motoboys próprios. O custo, porém, é real e precisa entrar na conta.
4. Os anúncios patrocinados
O algoritmo do iFood funciona como qualquer outro marketplace: estabelecimentos que investem em posicionamento pago aparecem com mais destaque nos resultados de busca dentro do aplicativo. Para restaurantes em regiões competitivas, ignorar esse recurso pode significar queda significativa na visibilidade.
Os valores investidos em impulsionamento variam muito de operação para operação, mas raramente são zero para quem leva o canal a sério.
5. O prazo de repasse e o custo de capital
Esse é o componente mais invisível e menos discutido. O iFood não repassa o valor das vendas no dia seguinte. Dependendo do plano contratado e das condições negociadas, o repasse pode ocorrer em até trinta dias corridos.
Para um restaurante que fatura R$ 30.000 por mês pelo aplicativo, isso significa que, em média, há R$ 15.000 “presos” no ciclo de repasse — dinheiro que o estabelecimento já vendeu mas ainda não recebeu. Para operações que trabalham com capital de giro apertado, esse descasamento entre recebimento e pagamento de fornecedores tem um custo financeiro concreto.
A simulação completa
Tomando como base um restaurante hipotético com as seguintes características:
- Ticket médio por pedido: R$ 50,00
- Volume mensal: 150 pedidos
- Faturamento bruto mensal pelo iFood: R$ 7.500,00
- Comissão: 27%
- Plano mensalidade: R$ 150,00
- Uso de entregadores próprios (sem taxa logística)
- Investimento em anúncios: R$ 200,00/mês
Os descontos ficariam assim:
- Comissão de 27%: R$ 2.025,00
- Mensalidade do plano: R$ 150,00
- Anúncios: R$ 200,00
- Total retido pela plataforma: R$ 2.375,00
Isso representa 31,7% do faturamento bruto gerado pelo canal. De cada R$ 100,00 vendidos, R$ 31,70 ficam com a plataforma antes de qualquer custo operacional do próprio restaurante — insumos, mão de obra, aluguel, energia, embalagem.
Se o restaurante trabalha com margem bruta de 60% (comum no setor de fast food), o lucro líquido sobre esses R$ 100,00 seria de apenas R$ 28,30 — supondo que todos os demais custos estejam sob controle.
O que a maioria dos restaurantes não percebe
Há dois efeitos colaterais do modelo de marketplace que raramente aparecem nas discussões sobre custo, mas que impactam o negócio de forma estrutural.
Você não tem os dados dos seus clientes. Quando um pedido é feito pelo iFood, o restaurante recebe a comanda, mas não recebe o contato direto do cliente. Não há número de telefone, não há histórico de compras acessível para o estabelecimento, não há possibilidade de comunicação direta para trazer esse cliente de volta. Toda a inteligência sobre o comportamento do consumidor fica com a plataforma — que pode, inclusive, recomendar um concorrente ao mesmo cliente no pedido seguinte.
Você é tão visível quanto seu investimento permite. O alcance orgânico dentro dos aplicativos de delivery diminuiu de forma consistente nos últimos anos, à medida que o modelo de anúncios pagos amadureceu. Restaurantes que não investem em impulsionamento simplesmente desaparecem das primeiras posições — o mesmo fenômeno que aconteceu com páginas do Facebook e posts no Instagram ao longo dos anos 2010.
Como fazer essa conta no seu restaurante
Para qualquer operador que queira entender com precisão quanto o iFood custa para a sua operação específica, o exercício é simples:
- Acesse o relatório financeiro do último mês completo no painel do estabelecimento.
- Identifique o faturamento bruto gerado pelo canal.
- Some todos os descontos: comissão, mensalidade, taxa logística se aplicável.
- Acrescente o valor investido em anúncios no período.
- Divida o total de descontos pelo faturamento bruto.
O resultado é o percentual real que a plataforma retém da sua receita. Para a maioria dos restaurantes de pequeno e médio porte, esse número fica entre 28% e 35%.
A alternativa que está crescendo
O crescimento do atendimento direto pelo WhatsApp — com ou sem automação — é, em grande parte, uma resposta direta a esses custos. Restaurantes que migram total ou parcialmente para o canal direto eliminam a comissão percentual e substituem o custo variável por um custo fixo previsível.
Não existe canal zero custo. O atendimento pelo WhatsApp exige estrutura — seja humana, seja tecnológica. Mas a estrutura de custos é radicalmente diferente: um custo fixo mensal de atendimento, sem participação no faturamento, sem prazo de repasse e com os dados do cliente pertencendo ao restaurante.
Para operações que já têm volume consistente, a matemática costuma favorecer o canal direto. Para operações menores, que dependem do tráfego do marketplace para atrair novos clientes, a transição exige mais planejamento — mas o destino tende a ser o mesmo.
Conclusão
O iFood e os demais marketplaces de delivery cumprem um papel real: trazem visibilidade, tráfego e uma estrutura logística que muitos restaurantes não teriam condições de montar por conta própria. Para operações em fase inicial de crescimento, esse valor é genuíno.
Mas visibilidade tem um preço — e esse preço precisa ser calculado com precisão, não estimado. Todo restaurante que opera em marketplace deveria saber exatamente quanto paga por pedido, em termos absolutos e percentuais, e comparar esse número com o custo de construir um canal próprio.
A decisão de onde e como vender é estratégica demais para ser tomada sem essa informação na mesa.
Referências
ABRASEL — Associação Brasileira de Bares e Restaurantes. Relatório do setor de alimentação fora do lar. São Paulo: ABRASEL, 2024.
SEBRAE. Guia de gestão financeira para negócios de alimentação. Brasília: Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, 2024.
IFOOD. Central de ajuda: planos e condições comerciais. Disponível em: https://www.ifood.com.br. Acesso em: 14 maio 2026.
NUBANK INSIGHTS. O custo do capital de giro para pequenos negócios no Brasil. São Paulo: Nubank, 2024.
SEBRAE. Margens de lucro no setor de food service brasileiro. Brasília: Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, 2023.